segunda-feira, 17 de outubro de 2016

De repente, mãe!

Um dos meus grandes prazeres nessa vida é escrever e, de repente, percebi que ainda não narrei em linhas intermináveis (como gosto tanto de fazer) o evento mais importante da minha existência: tornar-me mãe. Meu conselho? Prepare-se, porque a seguir virão uma sequência incansável de palavras - e (pasmem) elas não vão conseguir transmitir metade do que isso representou em sentimento. Vamos lá?

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Dezembro de dois mil e quinze, após três meses de interrupção do anticoncepcional, quinze dias de atraso, um ano e meio de casamento, um "será?" gritando na mente de uma forma tão insistente que podia ser ouvido a quilômetros dali. De posse do teste de farmácia, veio a leiga e foi-se a farmacêutica: os tais dois tracinhos eram tão difíceis de interpretar que comecei a questionar se estavam no idioma certo. As mãos trêmulas pediram reforço e outros olhos também duvidaram sobre o significado daquelas diminutas linhas paralelas. Para não restar dúvida, fomos ao laboratório mais próximo (e mais barato) tirar a prova (e o sangue). O resultado era indubitável, mas meus olhos e minha mente estavam especialistas em me distanciar da conclusão. Depois de algum tempo, a certeza chegou: os dois tracinhos e a dosagem daquele hormônio na casa dos vinte e três mil realmente noticiavam a batida de outro coração dentro de mim. E o que mais poderia fazer um ser carregando consigo quatro átrios e quatro ventrículos se não amar ainda mais? Foi o que eu fiz. Fomos dar a notícia a todos que nos amam e eles, entre lágrimas, gritos e sorrisos, passaram a nos amar ainda mais, afinal em breve daríamos a eles um belo motivo a mais para viver.
Se eu disser que a ficha caiu instantaneamente, seria uma inverdade; passei algum tempo tentando entender o que era a manchinha no ultrassom, ao mesmo tempo que me adaptava aos leves (porém totalmente dispensáveis) enjoos. Começaram, então, as apostas entre o rosa e o azul. Incontestavelmente, o rosa ganhou para todos. Mas para mim, muito sinceramente, o xadrez rosa/azul reinou até o dia da descoberta. Por pressão da vovó da criança, fiz o teste de sexagem fetal (caríssimo e totalmente prescindível). Perdi as contas de quantas vezes atualizei o aplicativo do Sabin para saber se o resultado estava pronto, mesmo sabendo que demoraria dois dias ou três. Ao final do segundo dia, num F5 despretensioso na página, eis que o resultado estava disponível. E, sem mágica e de uma forma desajeitada, acabei clicando e abrindo o exame. O clamor de todos por uma boneca de verdade foi atendido: era uma menina. O fato de não ter preferência pelo sexo torna completamente previsível minha feliz reação e brincar de boneca nunca é demais. A partir daquele momento, eu passava de "mãe do bebê" para "mãe da Lara Oliveira Pradela". Sobre o nome, já havíamos escolhido há algum tempo (o dela e dos outros 3), sempre focando em nomes curtos, de fácil pronuncia e escrita, sem letras desnecessárias e que ficasse mais ou menos no meio da chamada pra ela eventualmente ter tempo de fazer o dever de casa que não fez (que ela pule essa parte quando for ler).
A barriga demorou um pouco pra crescer aos meus olhos e bastante aos olhos dos outros, que tinham uma incompreensível dificuldade de enxergar aquele volume (hoje, vendo as fotos, talvez não fosse tão incompreensível assim). A vida passa a ser contada em semanas e a conversão em meses passa torna-se o assunto mais polêmico da mesa.
Um belo dia, com a barriga já aparente (e dessa vez não só pra mim), sinto que a expressão "borboletas no estômago" toma vida: algo está saltitando dentro de mim! Os primeiros chutes são uma mistura difícil de explicar...é engraçado, emocionante, esquisito, maravilhoso e todos os vários elogios que antes jamais caberiam na mesma frase.
A escolha do tipo de parto é algo que me assombrou até o último segundo. Talvez porque não escolhi um obstetra desde o começo (mudei com vinte e poucas semanas), ou simplesmente porque considerei um verdadeiro problema ter que escolher entre as dores do parto normal e a cirurgia do parto cesariano. Não faltaram artigos, depoimentos, relatos, vídeos e histórias para eu consultar nessa indecisão. Decidi pelo parto normal, achando que isso bastava para que ele acontecesse. O novo obstetra apoiava essa decisão, e o parecer dele era um suporte extremamente válido para quem ainda estava meio insegura com a opção, afinal eu e meu marido nascemos beirando os 4kg e para nossa filha era essa a estimativa de muita gente. E eu, mesmo sabendo que a alimentação e estilo de vida da gestante influenciam muito no peso do bebê, acabava caindo na pilha.
Cada dia desde que eu descobri a gravidez foi diferente de tudo que eu já vivi. Não fui uma grávida típica, daquelas que morrem de enjoo, tem desejo de comer tinta de parede, perde todas as roupas, mal consegue andar, ora por conta do inchaço, ora por conta do sono incontrolável. Eu vivi dias de princesa: me sentia linda, mesmo sabendo que estava barriguda e sem cintura. Tive uma disposição enorme pra ir malhar (até o último mês, inclusive), fiz cursinho, prova de concurso, iniciei uma pós-graduação...enfim, energia não faltou nem um segundo.
O ensaio gestante ficou mais bonito que todos aqueles que me serviram de inspiração. Modestia à parte, me apaixonei por cada foto e até hoje meus olhos brilham quando vejo uma delas. O chá de fraldas foi um sonho! Deu MUITO trabalho e no dia parecia que tudo ia dar errado, mas no fim das contas foi tudo muito melhor do que eu planejei, graças a todos das nossas família que tanto nos ajudaram. Depois disso, só estava faltando um detalhe: a chegada da Lara.
A data prevista para o parto era nove de agosto. Como eu não gostava de agosto, entrei em contagem regressiva nos dez últimos dias de julho. Sem nenhum sinal de que a hora estava chegando, julho se foi e levou com ele minha esperança do parto não ser em agosto. O tal mês oito chegou e os palpites de data foram caindo por terra: ninguém acertou a data da chegada dessa princesa. Última consulta com o obstetra foi lá pelo dia dois e nesse momento o médico me alertou: pelo tamanho da criança, dificilmente eu conseguiria o parto normal. Um milhão de artigos científicos mostram que não há relação entre tamanho do bebê e êxito no parto normal, mas quando o seu obstetra, aquele que deu super apoio ao parto normal desde o começo, diz que não vai rolar, você acaba acreditando. Marcamos a cesárea para o dia treze e eu fui pra casa meio desiludida e meio angustiada por marcar a cesárea; mesmo "sabendo" que não ia conseguir, queria que ela nascesse apenas quando estivesse pronta.
Dia cinco de agosto desse ano caiu numa sexta-feira e eu, especificamente, voltava da pós-graduação lá pelas onze da noite com o rádio ligado e cantando vergonhosamente quando senti uma dorzinha diferente. Mais tarde eu descobriria que aquilo era o primeiro projeto de contração e que o trabalho de parto estava querendo ter início. No dia seguinte, sábado, tive aula o dia todo e a tal dorzinha diferente me acompanhou em cada disciplina. Em casa, preparávamos o quartinho dela e eu me dividia entre segurar o pote de cola pro papel de parede e dar uma longa pausa pra respirar bem fundo e torcer pra dor passar. Assisti cada minuto da madrugada de sábado pra domingo enquanto me contorcia com as dores. Como mãe de primeira viagem, tinha certeza que no próximo espirro a Lara ia sair. Comovido com minhas primeiras olheiras de uma noite sem dormir, meu marido me convenceu a ir à maternidade: colo fechado, zero cm de dilatação. O primeiro pensamento? "Meu Deus, se com essa dor o colo ainda está fechado, até chegar aos dez centímetros eu com certeza vou ter morrido." Voltei pra casa num mix de "vai passar"/"vai ter que ser cesárea". Mas o sentimento que reinava nesse momento era, sem dúvida, a dor miserável das contrações, que vinham numa intensidade louca e iam embora numa velocidade ainda mais insana. No início da segunda-feira, dia oito, acabei voltando à maternidade, porque não tava conseguindo conciliar a dor com a respiração - e respirar é bem importante. Os zero tinham se transformado em dois centímetros, que se transformaram em três pela caneta da doutora ao escrever  no prontuário só pra que me internassem logo. De uma da manhã às seis os centímetros se transformaram em sete e eu cheguei à beira do desespero umas setecentas vezes naquela madrugada. Foi quando o médico entrou com um resultado de exame dizendo algo parecido com "é, você tentou... mas para não colocá-la em risco, vou preparar uma sala pra cesárea". Lara tinha uma laçada de cordão no pescoço, mas isso não era impeditivo para o parto normal. Mas, até o momento ela não tinha encaixado, a bolsa não tinha estourado e os batimentos dela estavam desacelerando de forma preocupante a cada contração. Mesmo havendo a possibilidade dela nascer de parto normal sem problemas, a dor não me permitiu questionar muito o que estava ouvindo, apenas concordei e me preparei pra cirurgia. Não tive a sensação de nadar e morrer na praia, mas sim a felicidade de saber que aquele era o momento dela, ainda que fosse diferente do que eu tinha "planejado". Entrei na sala, levei a anestesia e ver a dor passando foi inacreditável. Mas, mais inacreditável ainda foi o momento em que um bebê roxinho, de três quilos e pouquinho, todo inchadinho e limpinho (tipo aqueles bebês de filme que a gente fala "que mentira, nem tem sangue"...pois é, não tem sangue mesmo!) veio até mim para que eu o sentisse pela primeira vez. Era minha filha, minha continuidade, meu prazer de viver daquele momento em diante... tudo que eu planejei por tanto tempo de repente tomou forma. Ela não chorou na hora, o que me deixou preocupada, mas rapidamente eu pude ouvir um ou outro gritinho dela. Não chorei de emoção, talvez pelo desgaste físico que tive nos dias que antecederam a sua chegada, mas meu coração quase saiu pela boca. É indescritível o sentimento... é o mundo em nossas mãos, o futuro na nossa frente, uma vida que EU fiz, gerei e agora posso tocar. É uma vontade de não sair de perto por nem um segundo sequer. É amor a primeira vista, mas que cresce de forma exponencial a cada dia.

Assim chegou a minha Lara, completando nossas vidas e transformando-as completamente. Os primeiros dias foram difíceis - e nunca havia lido nada que descrevesse o que me aguardava. Mas isso vai ser assunto pra um próximo post :)

sábado, 27 de junho de 2015

O mar, amor.

Talvez, então, seja válida toda a dificuldade dos poetas em definir o amor. Parece que essa loucura de sensações não cabe em uma, duas ou mil linhas de ideias. Como algo tão mundialmente disseminado simplesmente não se veste tão bem com nenhuma determinação que tentamos fazer?  

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O dourado do sol em seus primeiros raios. O horizonte, visto à beira-mar, parece infinito...fundindo-se ao "limite" do déu, tornando-se parte do paraíso sem fim.
Passo a passo, miramos naquela imensidão e damos início a uma trajetória rumo ao que de mais belo conseguimos enxergar.
A areia, apesar dos receios naturais que sentimos no início da caminhada, parece tão sólida e confiável que gravamos nela fortes pegadas, determinados e tranquilos sobre onde queremos chegar.
E aí...o primeiro fragmento de concha, pontiagudo e armado para o ataque, aproveitando nosso descuido em virtude da cabeça erguida e direcionada, nos causa uma ferida dolorosíssima. Ficamos impressionados... Como uma doce trajetória poderia causar tanta dor?
Sem entender muito bem porque, continuamos os passos com a ferida aberta e gotejando toda a dor que causou; continuamos, sentindo cada fisgada, mas continuamos. Um tempo depois, a ferida já não dói tanto. E, pouco a pouco, chega a hora que já não dói nada. Todavia, sempre que olhamos para a cicatriz revivemos, de uma forma incomparavelmente mais discreta, a dor que ali esteve contida. Mas, prosseguimos, compreendendo que somos ao mesmo tempo mais resistentes e mais vulneráveis do que achávamos antes. 
Focados na bela imagem do horizonte, temos nossa atenção desviada por um pingo de chuva que cai repentinamente. O tempo começa a fechar, o céu escurece e o mar dá seus primeiros sinais de fúria. As certezas começam a se diluir na tempestade que tem início; o medo começa a se instalar e os pensamentos dominantes são apenas sobre o desespero de não saber o que fazer. O caos começa, mas a trajetória ainda não para. Uma decisão de não parar toma conta de nós e, cientes das dificuldades que estão por vir, vamos em frente. Quando não esperamos, aquela sólida areia surpreende nossas passadas certeiras com a falta daquele chão que nos sustentava: caímos em um buraco. O mar, agora já suficientemente furioso, cobre nossas cabeças como quem quer fazer com que todas nossas tentativas sejam finalizadas ali. Nesse momento, tudo para. Ficamos em um modo "offline" - nem que seja por alguns segundos -, pensando, dentre outros milhares de coisas, no porquê de tudo aquilo. Choramos, e nossas lágrimas não são nada em meio a tudo que estamos submersos; o choro não resolve, o riso já não tem razão, os sentimentos parecer tem se mudado de dentro de nós. Somos, nesse instante, pedras. Rochas, inacessíveis, em pausa para saber se é ali o nosso lugar. Incrivelmente, passamos por esse momento tão complexo ilesos. Restituímos nossa forma original quando o mar vai perdendo a força e, em meio ao sufoco, parece existir um resquício de ar pra respirar. Parece que tem solução, mas ainda estamos afundados naquele buraco no qual entramos por pura falta de cuidado. Mas acontece que dali de dentro começamos a enxergar o que antes, mesmo que acessível a nossos olhos, deixávamos de ver. De lá visualizamos o céu, agora despido das grosseiras nuvens, estampados de estrelas. E daquelas visões ressurge a esperança, a coragem e, principalmente, a vontade. As possibilidades se ampliam e aquela caminhada, talvez iniciada com um pouco mais de ilusão que deveria, agora tem um rumo mais sólido, realista e consciente. Agora sabemos que existe muito mais além do que o belo horizonte, ainda que permaneçamos dispostos a alcança-lo. Amadurecemos! Passamos por situações completamente novas, nem sempre acompanhadas pela compreensão de nossos pares. Dotamos de significados verdadeiros aquilo que nos motiva, passamos a acreditar menos em conto de fadas e valorizar mais as nossas histórias da vida real, com todos os seus problemas e, é claro, suas dádivas. 
Talvez o horizonte, resultado da fusão entre céu e mar, esplêndido e aparentemente inalcançável, representem bem o amor.
Fazemos coisas incríveis para alcança-los, mas em algum momento da jornada percebemos que sua beleza é uma composição. A maravilha que é somente é por uma junção de fatores; pela caminhada árdua, pelas feridas sentidas, pelas novas descobertas, pela recuperação das esperanças em meio às tragédias, pelos desapontamentos, pelas boas surpresas, pelas quedas e pela capacidade que desenvolvemos de sempre levantar. Talvez uma vida não seja suficiente para chegar lá... Mas sem dúvidas almejar isso pode torná-la inegavelmente mais prazerosa de ser vivida.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Como um quebra-cabeça

Como não se recordar com apreço das horas perdidas na vida procurando, quase que incansavelmente, montar um quebra-cabeça? Desde aqueles relativamente óbvios aos que continham imagens de obras de arte: encaixar aquelas inúmeras pecinhas era quase que uma aventura. Muitos calendários depois, resolvi pensar como tantas coisas na vida estão traduzidas na jornada de montar um quebra-cabeça. Não garanto que todos concordem com (ou sequer entendam com clareza) as metáforas - ora simplórias demais, ora exageradas demais - que pretendo redigir aqui. Mas, vamos lá... À primeira vista, por que montar um quebra-cabeça? Motivos variados, eu sei. Uns pelo desafio, outros porque sentem a necessidade de se dedicar a algo até o fim... Cada qual com seus motivos, ingressamos na aventura. Há quem veja "de fora" e se pergunte: "Mas por que diabos ele(a) inventou de fazer isso? Não faz sentido". Pra eles. Não faz sentido pra eles, que não sabem o que te motivou. Você abre a caixa e lá vem o desespero: aquelas peças (que, para os mais corajosos, podem passar - e muito - de mil) todas soltas, embaralhadas, sem nexo e esperando você para dar rumo à cada uma. Mas, aos poucos, com toda paciência e cuidado, começamos a encaixá-las. Tem sempre aquelas peças óbvias, de um canto, da base, da parte colorida do desenho, que você nota tão facilmente qual sua posição que começa a pensar que tudo aquilo vai ser mais do que fácil: vai ser perfeito. Tomados pela empolgação, vamos em busca dessas partes triviais, alegres e confiantes por estarmos lidando tão bem com essa missão aparentemente bem mais complexa do que tem sido. Pois é... De repente, as peças perfeitas vão diminuindo, diminuindo... e quando conseguimos perceber, já não há mais nada fácil ali: começamos a ver que o encaixe vai precisar de mais empenho para acontecer. Mas, nada que motive o desânimo, afinal você se propôs a concluir essa montagem para enxergar a bela figura que aparecerá ao término. Continuamos a procurar as peças e seus respectivos lugares, agoras dotados de um pouco mais de lógica e raciocínio, pensando nas possibilidades e lutando pra que dê tudo certo. Podemos confessar, agora, que a paciência já não está em seu mais alto patamar, e há também tantas outras coisas a fazer que parecem estar mais divertidas do que perder horas em algo tão difícil de entender... Que nada! Conseguimos superar esses pensamentos, e continuamos a montar, agora mais devagar do que de costume, a nossa almejada figura. Já nos estágios mais avançados, observamos que as lacunas diminuiram, restando poucas peças para ocupá-las. E as vezes, mesmo com a peça certa nas mãos, não conseguimos fazê-la encaixar. Ou ainda tentamos, mesmo que à força, empurrar peças em lugares que não lhes pertencem. O pior é que as vezes a peça na lacuna errada passa despercebida por muito tempo... Mas, quando você finalmente tiver em mãos a peça correta, vai perceber que ela não tinha absolutamente nada a ver com aquele lugarzinho. E quanto à primeira situação, com o tempo você vai entender que o seu ponto de vista é quem não permitia o encaixe: a peça sempre esteve pronta pra estar ali. O problema maior é quando você percebe que o pior aconteceu: a peça perfeita para determinado lugar foi perdida ao longo do percurso. Você perdeu por desatenção, ou por encaixar outra peça (erradíssima) em seu lugar... Seja como for, toda a caminhada fica interrompida nesse momento. Mesmo que você termine a montagem, sempre olhará para ela sabendo que falta alguma coisa, falta aquela peça que permitiria a totalidade. Porém, como sempre há esperança, você encontra a peça, seja lá onde você tenha deixado: é hora do encaixe final. Não há nada te impedindo, é apenas você, a peça em suas mãos e a última lacuna a ser preenchida. E se o telefone toca? E se você se lembra que é o último episódio da novela? Já pensou se você adia esse momento em virtude de qualquer outro compromisso, e a janela aberta da sala permite a entrada de uma ventania que, sorrateiramente, destrói tudo que você construiu e inclusive desaparece com peças essenciais à sua conclusão? Pois é... Então, nessa situação, temos que encaixar logo a tão sonhada última peça e observar o que tanto desejamos durante todo esse tempo: a bela figura, a junção das pecinhas, a sua totalidade. Talvez pra quem veja - mais uma vez "de fora"- não seja lá essa maravilha toda. Já para você, que montou cuidadosamente cada parte, que perdeu a paciência e quis desistir inúmeras vezes, mas teve força de vontade para ir até o final, que desesperou-se com a ideia de perder alguma pecinha tão preciosa, que refletiu mil vezes sobre as possibilidades... pra você, aquilo é incrível! Aquilo significa que você conseguiu se dedicar a algo e que realmente valeu a pena. Significa que você valorizou cada peça e agora pode desfrutar do prazer de ver seu trabalho concluído. Agora, ninguém pode destruir o que você fez. Mesmo que alguém embaralhe todas as peças, você sabe que sempre será possível remontá-las. Você já agradeceu hoje pelo seu quebra-cabeça? :)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Lembranças (ainda) não vividas

Um dia, você acorda. Os lençóis tem o mesmo toque, o amanhecer o mesmo brilho, o café o mesmo aroma. De dentro daquelas paredes, você sabe que algo mudou. A sutileza com a qual nasceu a origem da mudança é tamanha, que nem os mais treinados olhares poderiam atestar que ela aconteceu. Você, que não acredita em destino, caminha como quem poderia fazê-lo de olhos fechados. Mas, você, de alguma forma inexplicável e até incompreensível, sabe.
A vida segue e mil pessoas esbarram em você durante a jornada; algumas, você mal vê. Outras, você resolve seguir. Caminhos tortuosos, que muitas vezes não levam a lugar nenhum. Mas, ainda assim, imprescindíveis ao que está por vir. E no meio de tantos caminhos, você imagina que o certo estará cultivado de belas flores, grama aparada, céu azul e pássaros a cantar: doce ilusão. Aquele que tem pedras, te conduz aos tropeços, te faz pensar em voltar... Talvez esse seja o que te levará ao que você, mesmo sem ter ciência, procura encontrar. As milhares de coisas que não se pode compreender são sustentadas por um pensamento fixo e até difícil de aceitar de que é ali. As adversidades transbordam ao seu redor, mas a sua assustadora tranquilidade contorna uma a uma. E veja que, no fim das contas, todos os caminhos que você percorreu ensinaram a não cair em alguns buracos: no fim, não foram em momento algum em vão. Eles simplesmente alí estavam para que você pudesse compreender e aprender melhor sobre o caminhar. Pois bem, você finalmente encontrou por onde ir. E agora?
A trajetória só começou... E pra concluí-la você terá que caminhar por estradas desconhecidas, sujar os pés e até machuca-los. Olhar pra trás e querer voltar, mas será tomado por uma força maior que te impulsionará a continuar. Vai ser cansativo, e você poderá até pensar em desistir. Porém, você não estará sozinho. Compartilhar a dor, a felicidade, a vitória... Isso te fará entender por que tantas vezes você resistiu à tentação da desistência, e porque tantas vezes os caminhos que aparentavam ser mais atrativos foram por você rejeitados.
Um dia, você acorda. Os lençóis mudaram, o amanhecer aparece sob outra perspectiva. E um novo aroma toma conta do ambiente. De dentro das paredes, agora você tem certeza que algo mudou – basta abrir os olhos, olhar pro lado e você verá.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

À luz da lua. À lua, nossa luz.

A noite chega, sorrateira, apagando a luminosidade do dia com sua majestosa escuridão. Mas, sustentada nessa imensidão, a luz da lua não se acanha e alí permanece, sem desistir de iluminar as milhares de almas que sonham sob esse clarão. Aqui da superfície suspiram brancos, negros, ricos, pobres, decididos, confusos... Carne e osso, recheados de ideias ousadas ou recatadas, engajados em fazer de sua existência algo valioso - ou simplesmente existindo. A atmosfera que conecta essas duas realidades trata também de permear entre a extensão universal, talvez carreando os devaneios terrestres, talvez transportando mensagens superiores que caminham entre nós de uma forma tão sublime que se torna imperceptível aos olhos. A bondade e a caridade as vezes parecem percorrer nossas almas de uma forma leve, numa tentativa de construir nela uma barreira para o mal e uma motivação para a evolução. Esses bons ares volta e meia são dissipados pelo ardor da crueldade que, infelizmente, também nos constitui. Somos tão pouco, mas nossas ações podem significar tudo na vida de alguém - ou de alguéns. Ser bom não é simples, nem dá tanto destaque quanto ser detentor do poder. As vezes é difícil olhar pra dentro de si quando se vive nessa vasta superfície...as vezes parece impossível não se render às tendências, sem julgar se elas constituem os ventos bons ou ruins. Nesses momentos, o maior dos conselhos está pairando sobre nós: basta olhar pra lua, e lembrar de como ela não se deixa corromper pela escuridão simplesmente pra permitir que nossas almas não parem de sonhar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

2013

Janeiro. Férias. Sono. Amor. Aniversários. Fevereiro. Sol. Praia. Amor. Camarão. Amor. Março. Repaginada. Repouso. Novidades. Abril. Retorno. Rotina. Alegria. Maio. Faculdade. Surpresa. Parque. Beijo. Felicidade. Junho. Término. Choro. 21anos. Redescoberta. Felicidade. Julho. Férias. Balada. Loucura. Sono. Curtição. Felicidade. Agosto. Salsa. Ceviche. Cinema. Pipoca. Felicidade. Setembro. Estágio. Aniversários. Salsa. Filme. Pipoca. Mojitos. Concurso. Felicidade. Outubro. Surpresas. Pausa. Continuação. Aprovação. Patins. Halloween. Felicidade. Novembro. Sushi. Projetos. Premiação. Doente. Mambo. Presente. Árvore. Pausa. Felicidade. Dezembro. Häagen-Dazs. Felicidade. Açaí. Presente.  Velas. Pinheiro. Natal. Família. Almoço. Saudade. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O outro do "um dia após o outro"

Todo começo é precedido por um fim, afinal, para que exista o novo, o velho teve que ser exterminado de alguma forma. Dizer dessa forma faz parecer que o processo é calmo, mas na grande maioria das vezes a ruptura de uma realidade para a chegada de uma nova é drástica e de consequências substanciais. O mais complexo é o entendimento dos fatos, que se dão de uma forma tão intensa que acabam por perturbar nossa capacidade de compreensão, que é substituída pela raiva e/ou indignação.
O importante é ter a calma e a serenidade para esperar a erupção passar e caminhar sobre as cinzas do vulcão: causará dor, obviamente, e deixará cicatrizes que dificilmente irão sumir. Mas quando tudo passar, você estará resistente e resiliente, aprimorando a capacidade de se refazer a cada queda.
Não cabe a ilusão de crer ter sido a última vez, a última lágrima ou o último sofrimento: no máximo podemos nos certificar que quem gerou tais desconfortos não torne a ser o responsável por acontecimentos semelhantes no futuro.
A culpa também não deve simplesmente ser exaltada, afinal ela não é a protagonista. Quem se destaca, por direito, são as consequências dos ocorridos, e não a determinação de quem os proporcionou.
Há tanto a ser dito, mas ao mesmo tempo tantas palavras seriam inúteis diante da inexistência de um padrão, de características de identificação, de perfis específicos que culminem em sofrimento: ele aparece em cantos inimagináveis, onde imaginávamos residir bons corações que jamais teriam a habilidade de magoar. Mas eles magoam.
Felizmente, a mágoa, como qualquer outra lesão, pode ser cicatrizada. Uma vez realizado esse processo, não haverá sensibilidade naquela região; mas as demais localidades ainda estão susceptíveis a novos ataques.
Vingança, para mim, não cabe aqui. É preciso entender que os fatos já ocorridos não são passiveis de mudança, então a melhor saída é a felicidade plena, o desejo de boas energias aos que te magoaram e a evolução interna, buscando tornar-se uma pessoa melhor a cada dia.
Os bons ventos sopraram em minha direção nessa noite, e depois de tantas turbulências, me sinto num voo calmo com destino ao melhor que posso ter. Nada é por acaso, mas nem por isso podemos nos isentar da influência que temos sobre os acontecimentos. Hoje, tenho apenas uma história feliz com um final triste, o qual justifica a manutenção dos fatos no passado, e em hipótese alguma transcrevê-los ao presente.
Hoje, eu respirei fundo e não senti o choro preso na garganta: ele não está mais lá. O que eu reparei que está lá é uma vontade imensa de progredir, em todos os âmbitos. Assim sendo, posso afirmar que sobrevivi e aprendi a viver na melhor companhia do mundo: a minha, nunca ignorando aqueles que me abraçaram forte e acolheram minhas lágrimas.

À vocês, o meu sucesso em seguir em frente. Hoje, eu estou bem.